
Inevitável é não relembrar o passado quando se tem um presente tão cheio de inconstâncias, de não olhá-lo para aprender com os erros, para não chorar pelas mesmas bobagens. Inevitável é olhar para trás e não guardar saudades, não trazer lembranças, não derramar lágrimas por coisas boas e ruins, que também são inevitáveis. Inevitável é não fazer o que os outros dizem: pensar somente no presente. É necessário virar-se para olhar o caminho que andejou. Inevitável é não ouvir velhas músicas, recordar velhas histórias, sentir nostalgias.
É tentar ser forte quando menos se consegue. Segurar uma lágrima quando ela mais implora para sair. Mostrar-se dura o suficiente para não chorar por tolices. Reconhecer o fim e mesmo assim desejar que ele não aconteça.
É inevitável não querer ficar longe de casa às vezes, passar por lugares que outrora fazia questão de passar, por prazer. Descer do ônibus pontos antes para caminhar sem rumo, pensar. É inevitável não desejar coisas que o inconsciente almeja. Inevitável é não errar a mesma coisa duas vezes, não aprender com as lições, acreditar que tudo pode ser diferente, que tudo vai ser diferente.
É querer que nada seja igual quando se nota que a única saída que tens é esta ou nada. É desejar com todas as forças sair dessa prisão e saber que quem carrega as chaves não é você. É tentar modificar pessoas, é querer ouvir algo que o deixará bem. É inevitável não pedir socorro aos amigos, não tentar distrair a mente, levá-la a um lugar onde a consciência não a acuse, não aponte o dedo e lhe diga que pode estar errada simplesmente por desejar. É inevitável não se esconder em livros, em risadas falsas, em piadas sem graça para ocultar a angústia.
Uma hora há de acontecer. É inevitável não dizer todas estas coisas quando tudo me diz para colocar para fora. Inevitável não chorar ao falar, não sentir a alma derreter-se em lágrimas por coisas banais. Mas e daí? Quem se importa? Ninguém. Por isso é inevitável ainda almejar que alguém realmente se importe, que alguém realmente entenda, que alguém lhe diga que foi bom, não interessa como, e é inevitável não sentir-se melhor por essas palavras, por notar reconhecimentos.
É tão inevitável, tão patética essa mediocridade, que é inevitável não sentir-se ridícula por simplesmente, ser.
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