"Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar." Clarice Lispector
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
, Retrato ''
, Booom Não direi que não tenho culpa pela imagem que o meu espelho reflete de mim agora, mas sei também que não carrego comigo todo o peso da dor. Também sofri demais, chorei demais, prometi demais e não cumpri, amei demais, mas passou. E quem poderia prever? Você não acertou o tempo todo. Nenhum de nós fez as coisas do jeito que elas deveriam ser feitas. E eu não me culpo por esse novo retrato. Talvez este deveria ser o jeito exato de nós fazermos as coisas, mesmo não enxergando. Talvez tudo deveria ser assim. Mas quem sabe?
Eu, felizmente, não precisei fingir uma nova pessoa. Se me transformei no que sou, foi pela linha do tempo. O que sou hoje, é o reflexo das coisas que vieram do meu passado, das coisas que passei, das coisas que fiz os outros passarem. Não digo que estava escrito, foram apenas as minhas escolhas.
Este espelho reflete apenas as marcas do tempo, as coisas que ele nos traz, reflete o que as pessoas veem. O superficial. O exterior.
E eu já não me conheço. Não quando as noites chegam e me pego contando segredos e saudades para o meu travesseiro. Não quando derramo lágrimas de saudade daqueles tempos de criança onde eu não tinha tempo para mais nada além de sorrir.
Não, já não me reconheço neste antigo espelho da vida, revelando uma pessoa talvez diferente da que sempre fui. Ou talvez, eu ainda seja tão idêntica ao passado, que me estranho por isso.
A imagem já não reflete aquele rosto vermelho e inchado, logo no início da adolescência, com as lágrimas molhando toda a roupa. A imagem já não reflete aquela menina de apenas alguns anos atrás. E nem creio que já se foi.
Que tudo se foi. Que tudo ainda se irá… Só espera a sua hora, para sem adeus, partir. Acho que sou hostil ao progresso. Que talvez o meu passado infantil seja realmente a minha melhor parte.
Faz mal caminhar em sentido retrógrado? Porque não sei se quero progredir. Porque o longe me amedronta e torna a minha estrada obscura. Talvez eu seja fraca demais para encarar as dificuldades, mesmo sabendo que tenho que enfrentá-las. Talvez eu tenha medo de ser feliz novamente, de jogar tudo no vento. Às vezes, eu posso sentir que tenho medo de envelhecer. De parar de escrever. De parar de sentir. De ver uma nova imagem no espelho a cada ano.
Mas sim, eu posso encarar. Desde que eu tenha a minha própria subjetividade, desde que ninguém me force a ser como eles. Porque eu passo o tempo todo tentando ser eu mesma, enquanto as pessoas passam o tempo todo querendo que eu seja igual.
Perdão se o meu espelho não agrada vocês, ele agrada a mim. Perdão se eu não faço esforços para ser aceita no “grupo”. Eu só não quero ter que corresponder as vaidades dos que não se importam com o verdadeiro.
Deixem-me ser livre, e eu posso ser eu mesma. Com todos os defeitos, falhas e imperfeições, mas deixem-me tentar.
Permitam que eu me reconheça.
“Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?”
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