"Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, depende de quando e como você me vê passar." Clarice Lispector
domingo, 11 de setembro de 2011
, Até se der Conta '
Já perdera as contas de quantas milhões de vezes chorou junto ao seu travesseiro todas as noites. Começou a contar nos dedos o tanto de vezes que já gritara para que ele a esquecesse, e conseguiu, porque sabia que poucas foram as vezes que isso ocorrera, por um simples e súbito medo de perdê-lo no mesmo instante, ou aos poucos, que seja.
Tentou lembrar também quantas vezes depois do adeus tentara tirar ele de sua cabeça. Mas a matemática do amor vai além do que nossos dedos ou do que qualquer calculadora é capaz de calcular. E chorava.
A fotografia do seu rosto permanecia na cômoda, meio escondida, meio aparecendo, para que não corresse o risco de alguém vê-la. Seu olhar parecia tão caloroso quanto os daquelas noites de inverno em que ele a aquecia. E ela o desejava tanto neste frio. Para fazer-lhe companhia, como sempre fizera.
Mas não deu-lhe os carinhos e valores adequados, lhe desmereceu e pisou em seu coração, como quem pisa em uma pedra qualquer… e não soube satisfazê-lo, tampouco fazê-lo feliz. Hoje era tarde, ontem foi tarde para o arrependimento. Porque não importa a quantidade de argumentos contrários, ninguém realmente sabe o que tem nas mãos até que se vai. Ninguém realmente vive até chegar a beira da morte. O verdadeiro valor da vida se dá quando o indivíduo sente que está prestes a perdê-la. Até lá, todos os míseros medos são apenas coisas supérfluas.
E se dera conta disso somente agora. Somente ao ouvir a música que a faz lembrá-lo tocar ao rádio pela manhã. Só parou para pensar no que havia feito depois de sentir que jamais ele estaria com ela. Porque sim, ele era carinhoso, compreensivo, mas isso não o tornava sem amor próprio. Tinha orgulho, sim, e deveria mesmo. E ela se dera conta que uma hora ele cansaria, e até então não sentira medo.
Até o dia de hoje. Quando ao nascer do sol ela já não sentia prazer e nem felicidade ao olhá-lo. Até o dia de hoje, que ir para o trabalho que sempre valorizou, tentando passar alguma mensagem, tentando passar conhecimentos para as pessoas, já não lhe agradava mais.
E hoje ela percebeu, percebeu o quanto às vezes torna-se tarde para viver. Porque nem sempre a antiga frase que “nunca é tarde para recomeçar” está totalmente certa. Talvez chegue um tempo em que tudo esteja realmente tarde, porque já perdeu todas as oportunidades que fariam, de uma forma ou de outra, a sua vida mais alegre. E essa oportunidade, junto com a tal alegria, se esvai. E finalmente não culpou o destino, acreditou que não era sem motivos, e descobriu que o motivo sempre fora ela mesma.
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